Exigência de receita para compra de remédio de tarja vermelha gera polêmica

 

31/05/2012 14:02

Exigência de receita para compra de remédio de tarja vermelha gera polêmica

Pela norma da Anvisa, o consumidor terá de apresentar receita até para comprar anti-inflamatórios e pílulas anticoncepcionais.

Beto Oliveira
Dep. Geraldo Thadeu (PSD/MG)
Geraldo Thadeu critica exigência da Anvisa: o SUS não suportará a demanda.

A exigência de receita médica para a compra de remédios com tarja vermelha causou polêmica nesta quinta-feira (31), em audiência pública da Comissão de Seguridade Social e Família. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já exige prescrição médica para a compra de medicamentos de tarja vermelha, como anti-inflamatórios e hormônios (pílulas anticoncepcionais e repositores), mas, na prática, a medida não é aplicada pela maior parte das farmácias. A agência estuda a implementação de mecanismos mais rigorosos para impedir a venda desses medicamentos sem receita, incluindo mais fiscalização e a aplicação de penalidades para quem descumprir a norma vigente.

O deputado Geraldo Thadeu (PSD-MG), que solicitou a audiência, critica a exigência. Para ele, a regra prejudica o consumidor, ao obrigá-lo a pagar por consulta médica para obter a receita. Além disso, segundo o parlamentar, o sistema de saúde público brasileiro não está preparado para essa determinação. “Cerca de 30 milhões de mulheres usam pílula e, se todas tiverem que ir ao médico e obter receita para comprar a medicação, o Sistema Único de Saúde (SUS) não suportará a demanda”, argumenta.

Beto Oliveira
Maria Eugênia Cury
Maria Eugênia: temos de cumprir o que já está definido.

Segundo a gerente-geral do Núcleo de Gestão do Sistema Nacional de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa, Maria Eugênia Cury, a agência classifica os medicamentos em três categorias: sob prescrição (com tarja vermelha); sob prescrição com retenção de receita (antibióticos e psicotrópicos, como antidepressivos e ansiolíticos, por exemplo); e isentos de prescrição (analgésicos, por exemplo). Os medicamentos com tarja vermelha exigem a apresentação de receita, sem que ela seja retida pela farmácia. Maria Eugênia disse que é preciso que as exigências atuais sejam de fato cumpridas, para evitar a automedicação e o uso inadequado dos medicamentos. “Não podemos negligenciar o que já está definido”, destaca.

De acordo com dados apresentados pela Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), dos 160 milhões de anti-inflamatórios vendidos no último ano, apenas 2 milhões tinham prescrição médica. Dos 9 milhões de pílulas do dia seguinte vendidas no mesmo período, 6 mil foram com receita médica. Dos 132 milhões de hormônios (repositores e anticoncepcionais) vendidos durante esse período, apenas 806 mil tinham receita.

Antibióticos
A representante da Anvisa explica que, no caso dos antibióticos, foi implementada em novembro de 2010 a obrigatoriedade de retenção da receita médica, porque as farmácias ignoravam a exigência de prescrição para a venda desse tipo de medicamento. Conforme Maria Eugênia, desde a implementação da medida, a venda de antibióticos caiu.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 2/3 dos antibióticos utilizados no mundo são usados sem prescrição médica e mais de 50% das prescrições de antibióticos são inadequadas. Além disso, a OMS estima que aproximadamente 50% dos antibióticos são administrados desnecessariamente.

Fiscalização

Beto Oliveira
Sérgio Barreto
Barreto apresenta dados sobre a venda de antibióticos no Brasil.

O presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto, defende a retenção de receita médica para a compra de antibióticos, porém ressalta que falta fiscalização da medida. Conforme dados apresentados por ele, um ano depois da implantação da medida, a venda de antibióticos caiu cerca de 18% nas redes de farmácias e, nas farmácias independentes, caiu apenas 2%. “Isso quer dizer que temos dois Brasis: um que segue a regra, outro que não segue a regra”, afirma. Para ele, é necessário equacionar o problema da dificuldade de obter receita médica por grande parte da população.

O diretor técnico da Alanac, Henrique Uchio Tada, também se preocupa com a falta de acesso da população aos serviços médicos. “Há estados do Brasil em que há menos de um médico para cada mil habitantes, como o Maranhão, em que a proporção é de 0,48 médicos por mil habitantes”, disse. Segundo ele, há concentração de profissionais nos estados mais populosos e capitais. Em Brasília, por exemplo, há 4 médicos para cada 1.000 habitantes. Tada ressalta ainda que 144 milhões de pessoas ou 75% da população brasileira dependem exclusivamente do SUS.

Para o presidente do Conselho Consultivo da Associação da Indústria Farmacéutica de Pesquisa (Interfarma), Jorge Raimundo, a aplicação imediata e generalizada da regra, para todos os medicamentos de tarja vermelha, é “impossível” no sistema de saúde brasileiro. Ele defende a aplicação paulatina, por categoria de medicamento. “A Anvisa deveria analisar que categorias de remédios podem ser isentas de tarja vermelha e quais de fato apresentam risco sanitário”, sugeriu. A representante da Anvisa afirmou que a agência está aberta ao debate.

 

Reportagem – Lara Haje
Edição - Natalia Doederlein - Foto em destaque: Beto Oliveira

Agência Câmara de Notícias

 

Notícias

Se for de alto padrão, bem de família pode ser executado

Dignidade garantida Se for de alto padrão, bem de família pode ser executado 1 de abril de 2025, 12h57 Para o juiz, o dono da loja tem condições financeiras suficientes para não ficar desamparado. Ele determinou, então, a penhora do imóvel, e destinou 50% do valor à autora da ação. Confira em...

Pacto antenupcial: Liberdade, proteção e maturidade a dois

Pacto antenupcial: Liberdade, proteção e maturidade a dois Marcia Pons Mais do que divisão de bens, o pacto antenupcial tornou-se uma escolha consciente de casais modernos que valorizam autonomia, planejamento e vínculos duradouros. domingo, 30 de março de 2025   Atualizado em 28...

Vontade de um dos cônjuges é suficiente para a concessão de divórcio

LAÇOS ROMPIDOS Vontade de um dos cônjuges é suficiente para a concessão de divórcio Rafa Santos 28 de março de 2025, 8h23 Ao analisar o caso, o desembargador acolheu os argumentos da autora. “Antes da Emenda Constitucional n. 66/2010, a Constituição exigia separação judicial ou de fato antes da...